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segunda-feira, 21 de abril de 2008

21 de abril de .....

A grande maioria dos brasileiros hoje está em casa, descansando em um feriado nacional. A data existe para que meditemos sobre o passado, retirar ensinamentos dos fatos ocorridos, mas ninguém é de ferro, vamos dormir até mais tarde, se houver sol: uma praia, pescar ou churrasquinho, quem sabe curar a ressaca do domingo.
Eu sou um pouco teimoso, resolvi recordar um pouco de história, ler a respeito de movimentos de emancipação do Brasil colônia, tentar lembrar sobre o primeiro movimento deste tipo e do seu caráter regional ou não.
O surgimento de um sentimento pátrio no habitante do Brasil colônia, remonta ao século XVII, com o desejo de implantação de uma política que atenda aos interesses locais, sem, contudo haver uma noção de um todo.
A expulsão do invasor holandês, a insurreição comercial e autonomista no Maranhão, guerra dos emboabas tudo tinha um caráter local, mas sempre com um sentimento contrário aos interesses da Metrópole.
Poderíamos até iniciar esta seqüência de fatos históricos com o movimento conduzido por Jorge de Barros Fajardo contra os jesuítas em São Paulo, mas quase todos estes movimentos tinham caráter localizado e com a elite regional no comando.
A Inconfidência Mineira não foi diferente, era regional e representava os interesses de uma elite contra a cobrança dos impostos por parte de Portugal. Não houve participação da população, aliás, a figura do Tiradentes era uma exceção no movimento, já que o mesmo não era um membro da elite local, mas ele também teve seus interesses contrariados pelo governo local.
Com a descoberta do movimento, não sendo membro da elite, foi executado para servir de exemplo a lideres de futuros movimentos.
A Inconfidência Mineira chama a atenção também, para um a participação mais ativa de um novo personagem em nossa historia: a Inglaterra.
A Inglaterra havia perdido uma grande colônia, ou se preferir um grande mercado consumidor, os Estados Unidos e, necessitava substituir este mercado.
Portugal já era bastante dependente da Inglaterra, tanto no quesito econômico, mas principalmente militar.
Portugal precisa de proteção contra a Espanha e a França, grandes competidores dos interesses ingleses na época.
Mas vamos deixar a Inglaterra de lado, o que torna a Inconfidência Mineira importante, apesar de seu caráter regional e elitista?
Segundo Boris Fausto em "História Concisa do Brasil", a "importância não decorre do fato material, mas da construção simbólica de que foi objeto. O movimento teve relação direta com o agravamento dos problemas da sociedade regional naquele período. Ao mesmo tempo, seus integrantes foram influenciados pelas novas idéias que surgiam na Europa e na América do Norte. Muitos membros da elite mineira circulavam pelo mundo e estudavam na Europa. Por exemplo, um ex-estudante de Coimbra - José Joaquim da Maia - ingressou na Faculdade de Medicina de Montpellier, na França, em 1786. Naquele ano e no ano seguinte teve contatos com Thomas Jefferson, então embaixador dos Estados Unidos na França, solicitando apoio para uma revolução...Um participante da Inconfidência - Jose Álvares Maciel -formou-se em Coimbra e viveu na Inglaterra...e discutiu com negociantes ingleses as possibilidades de apoio a um movimento pela independência Brasil".
“... Embora não pertencesse à elite, o próprio, Tiradentes se viu prejudicado, ao perder o comando do destacamento militar que patrulhava a estratégica estrada da Serra da Mantiqueira, porta de entrada para as minas."
Os interesses contrariados principalmente na nomeação de altos funcionários no comando da burocracia local foi fator importante na eclosão do movimento.
Eles aparentemente pretendiam proclamar uma Republica, tendo por modelo a Constituição norte americana, devedores da Coroa seriam perdoados, a instalação de fabricas seria incentivada.
Algo interessante seria a não existência de exercito permanente, mas sim o fato de que os cidadões deveriam portar armas e, quando necessário, servir na milícia nacional.
A coerência ideológica em conflito com os interesses pessoais, levou os inconfidentes a tratar a questão dos escravos, de forma peculiar. Somente seriam libertos os escravos nascidos no Brasil.
Um acontecimento histórico, com alcance limitado pode ter um grande impacto na historia de um país, este é o caso da Inconfidência Mineira. Ela não chegou a se concretizar e suas possibilidades de êxito eram quase nulas, mas sua relevância deriva da sua força simbólica. A Revolução de 1817, a partir de Pernambuco com abrangência em quase todo o Nordeste, não tem, por exemplo, o mesmo impacto em nossas mentes.
Tiradentes tornou-se herói nacional e as imagens de sua execução, com esquartejamento de seu corpo e exibição de sua cabeça, foram evocadas com grande carga emotiva nas escolas. Lógico que isso não ocorreu em um piscar de olhos, mas sim, através de um processo longo, cujo resultado final é a formação de um mito, que tem sua própria história.
No inicio, ainda sob a colonização portuguesa, prevaleceu a versão de que se tratava de um movimento de falta de fidelidade, como demonstra a palavra "Inconfidência", cujo significado pode ser a não observância de um dever ao Estado.
Com a independência de Portugal e surgimento do Império, o fato incomodava, já que era um movimento republicano e, Tiradentes fora condenado por Dona Maria, avó e bisavó dos imperadores do Brasil.
O fato histórico, que possibilitou a projeção do movimento, assim como a transformação de Tiradentes em mártir, foi a proclamação da Republica. Claro que havia uma base para tudo isso: o espetaculo montado pela Coroa, para intimidar a população causou um efeito oposto, mantendo na memória coletiva o acontecimento. Angariou simpatias para os inconfidentes e, a atitude de Tiradentes, assumindo a responsabilidade total pela conspiração, seu sacrifício final, facilitou o surgimento do mito logo após a proclamação da Republica.
O dia 21 de abril passou a ser feriado, a figura de Tiradentes foi retratada cada vez mais com imagens próximas a do Cristo, surgiu assim um dos poucos heróis nacionais, cujo culto como mártir, não encontra eco apenas nas elites ditas de esquerda ou direita, mas também na população geral.
Tiradentes tornou-se um herói e mártir para o povo comum, o povo da rua.