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domingo, 10 de junho de 2007

Invasão USP, visão de um jovem Uspiano



Apoena C. Cosenza, 21 anos, é estudante de História na USP e militante da UJC (União da Juventude Comunista) pelo campo “A Hora é Essa”.


Extremismo x Radicalismo
Quando meu pai me convidou à escrever uma nota para o pitacos sobre a Reitoria Ocupada da USP, só pude pensar que isto incorreria em alguma forma de traição do movimento. Mas em menos de um minuto percebi que colocar minhas observações pessoais em um blog político, democrático e de alta qualidade, não seria traição nenhuma, mas, pelo contrário, uma coerência com minha posição.
Por que coerência? Simples. Sou sim um radical. Sou radical, pois quero atingir a raiz dos problemas, e é isso que é ser radical. Quando entrei na USP me deparei com diversos problemas. Falta de professores, estrutura física dos prédios completamente comprometida, estrutura burocrática anti-democrática e corrompida (ao ponto de professores já terem saído na mão para decidir quem receberia verbas para pesquisa).

Em maio de 2007, dia 03, uma quinta feira, quando fiquei sabendo que se ocupava naquele momento a Reitoria da USP, só pude participar. Como não o fazer? Presenciei dias de chuva que o prédio da História foi alagado, presenciei aulas da Letras que alunos assistiam pela janela. Vi um professor da filosofia falando que não tinha conceito fixo para avaliação e bolsas de pesquisa não serem aceitas por motivos políticos.

A USP estava, e está, com um tumor, que se acentuava com a perda da autonomia: é a centralidade de decisões e a conseqüente falta de democracia. Deixemos claro, não sou contra a transparência, pelo contrário, ela é necessária à democracia. Mas também o é a diminuição de burocracia, o que nunca é colocado em pauta pelos governos, sejam quais forem.

Nesse sentido, sou sim radical, quero ver um país democrático. E ocupar (não invadir, pois invade quem é de fora, e aluno da USP é membro da USP e assim só pode ocupar) é um método. Método com seus defeitos? Com certeza. Mas um direito. Aprendi em propagandas da época eleitoral que democracia é mais do que voto. É participação. E participo do modo que posso.

Em certo ponto, porém, tudo saiu errado. As duas primeiras semanas foram uma batalha. O PSTU e PSOL, como sempre, tentavam nos dirigir. Convencer que deveríamos sair ainda com os decretos em vigor. Que já havia um avanço. Conduziam a assembléia com métodos sujos, mas muito antigos. Tratorando as propostas que chegavam na mesa, ignorando pessoas que pediam para se inscrever. Estendendo as assembléias até ninguém mais aguentar e ir para casa.

Vencemos essa tática. Mas nos aliamos à um demônio até então mal conhecido: LER-QI. A Liga Estratégica Revolucionária da Quarta Internacional, fração trotskista. O Custo foi alto. Essa minoria se mostrou uma especialista em manobras sórdidas. E muito pior. Alinhou-se ao PSTU na terceira semana, com o intuito de fazer a ocupação servir à CONLUTAS (essa sinistra instituição insurrecionista que ignora os interesses de cada sindicato, grupo e movimento, para gerar uma suposta revolução que nunca chega, pretexto para tentar eleger deputados, embora não eleja nenhum).

A tal LER-QI mostrou e mangas ao se revelar um enxame. Táticas antigas, como a de ocupar as duas primeiras fileiras das assembléias para dominar o contato com a mesa, são usadas. Mas há inovações nefastas. Criaram uma “polícia da plenária”, um grupo de seis a dez pessoas que ficam espalhadas pela assembléia, escutando tudo que se diz, vendo tudo que se faz. Ao primeiro sinal de ataque às suas propostas, acionam o restante do grupo e impedem que a pessoa fale. Cercam e, pasmem, até pressionam pessoas.

Saída de um verdadeiro karaoquê dos trotskistas, a LER-QI possui militantes que agem, pensam e se portam de forma quase idêntica. “Centralizados, mesmo que discordantes”, segundo palavras de um próprio militante da Liga. Uma espécie de enxame que, espero, se descobrirmos a rainha, e a derrubarmos, o resto cai junto.

Mas as peripécias não param por aí. Com a aliança do PSTU, a LER-QI domina, em nome da CONLUTAS, a mesa e o plenário. Domina todos os setores da Reitoria Ocupada da USP e torna o fato interno, a luta pela democracia e dignidade, em uma luta mesquinha por poder. Menos em um único local. A Comissão de Comunicação, último refúgio de quem busca a resistência lógica, manteve sua liberdade. Tanto que foi apelidada de PBI, ou Partido Burocrata Independente. Mas o custo aí também foi alto. Aliança com pessoas declaradamente insanas e com anarco-liberais. Os insanos e anarco-iberais ao menos ao menos desejam unicamente espaço para suas liberdades. Eles não possuem um projeto de poder.

Por isso, venho declarar: sou sim membro da Comissão de Comunicação da Reitoria Ocupada. Entretanto, minha opinião pessoal é que já passou da hora de levar uma greve e de abandonar a ocupação, já esgotada e implodida por uma tosca minoria organizada na Liga, e que diz querer uma Greve Geral, a partir da ocupação da reitoria da USP. De tal modo está longe da realidade, que tenta puxar greve nos Correios tendo como ponto de partida a ocupação, o que eles chamam de o “fato político mais relevante do momento”. Sorte que há militantes e sindicalistas que sabem bem que tal feito é impossível no momento, e até tentam, inutilmente, explicar isto para extremistas como os da LER.

A responsabilidade política manda que radicais, como eu (que buscam entender os problemas concretos e estruturais da sociedade), combatam certos extremismos (inteiramente descolados da realidade) que pregam a surreal idéia da “Greve Geral até o fim do Capital”.

Apoena Cocenza

São Paulo, 9/6/2007