
"Alguém pode perguntar: como é que um blog tocado por dois ex-subversivos de quatro costados, que sempre defenderam a rebeldia e a sublevação, defendam agora a preservação da Polícia Federal, como instituição e dos princípios da hierarquia e da disciplina?
A razão de uma aparente guinada de 180 graus é simples. O Brasil de hoje nada tem a ver com o Brasil da época da ditadura militar. Bem ou mal, conquistamos o Estado de Direito Democrático e temos hoje instituições democráticas, inclusive no aparato policial. Respeitar o seu rito e as regras que regem a sua vida é essencial para a manutenção da democracia. No caso específico do aparato policial (assim como no tocante às Forças Armadas) é essencial a defesa da hierarquia e da disciplina, como condições necessárias para que ele cumpra com suas funções, claramente estabelecidas pela Constituição.
Só se rompe com a hierarquia e a disciplina – assim como com todo o ordenamento institucional – em situações revolucionárias. Em tais contextos, destroem-se as velhas instituições e cria-se um novo aparato jurídico e estatal. Em síntese, a velha ordem dá lugar a um novo reordenamento do Estado e da sociedade. A Isso chama-se de revolução, a exemplo de que aconteceu na Revolução Francesa, na Rússia de Lênin, em 1917, na Cuba de Fidel e em tantos outros exemplos.
Quando a situação não é essa, o feitiço pode virar contra o feiticeiro. Que o diga João Goulart. Certamente ele não caiu porque estimulou a cizânia e a indisciplina nas Forças Armadas. O pano de fundo do golpe de 1964 é muito mais complexo, mas seu estímulo ao levante dos sargentos e à anistia aos marinheiros sublevados levou água para o moinho dos golpistas. O Brasil pagou um preço muito caro por isto. Mais precisamente 21 anos de ditadura militar.
Toda esta filosofada serve de alerta para o risco da insanidade que vêm acometendo delegados da Polícia Federal, a sua cúpula, o presidente Lula, o Ministro da Justiça, associações classistas da corporação, membros do Ministério Público e juízes de primeira instância, que deixa exposta para a sociedade as vísceras de uma crise institucional da Polícia Federal absolutamente desnecessária. E o mais grave: o próprio presidente Lula esmerou-se em trazê-la para o interior do Palácio do Planalto.
No curto prazo, esta patacoada ainda não ameaça a democracia brasileira. Mas é um grave precedente, que amanhã pode comprometer seriamente o Estado de Direito Democrático. E no horizonte pertíssimo, favorece profundamente a Daniel Dantas e outros acusados de graves crimes. Seus advogados saberão utilizar o espetáculo circense que está levando a Polícia Federal às raias da desmoralização, sobretudo quando os processos chegarem nas últimas instâncias da Justiça. Não tenham dúvidas: Daniel Dantas está aplaudindo o bate cabeças que o próprio presidente da República vem patrocinando.
Até para evitar que isto amplie em escala exponencial o sentimento de frustração da sociedade diante da impunidade mais do que comprovada, é essencial que a Polícia Federal volte ao seu leito normal. Que o presidente deixe de dar palpites sobre quem deve ou não conduzir os inquéritos. Que as associações classistas fiquem de bico calado em questões que não lhes dizem respeito. Mais do que nunca, vale o ditado: manda quem pode e obedece quem tem juízo. Para o presidente Lula segue um conselho elementar: macaco velho não mete a mão em cumbuca."
Escrito por pitacos às 19h59
Fonte: Pitacos: política brasileira em foco (http://pitacos-politicos.zip.net/)
sábado, 19 de julho de 2008
"Valores devem ser preservados. E instituições, idem"
terça-feira, 22 de abril de 2008
Raposa do Sol: bobagem do governo Lula
"Concordamos com Arthur Virgílio. O general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, errou na forma e acertou no conteúdo. Declarações públicas de militares sobre questões políticas sempre trazem uma carga de tensão, particularmente quando militares direcionam críticas ao presidente da República, a quem devem obediência. Todas as Forças Armadas do mundo estão organizadas tendo com vértice o princípio da hierarquia e quando ela é quebrada podem surgir crises.
Também foi negativa a nota de apoio do DEM ao general Augusto Heleno, que só jogou mais lenha na fogueira, assim como o apoio dado pelo PDT. Tudo isto passa a impressão de que estão de volta as vivandeiras, que no passado prestaram desserviço ao país e estimularam crises militares de proporções graves. Para a democracia, interessa que nossas Forças Armadas continuem mantendo o comportamento que assumiram desde a redemocratização de 1985, voltadas exclusivamente para suas funções profissionais e para cumprir o papel determinado por nossa constituição.
Feitas estas ressalvas, vamos ao problema maior. A criação da reserva Raposa do Sol foi uma enorme bobagem cometida pelo governo Lula. Uma espécie de doença infantil do esquerdismo, como Lenin gostava de afirmar. Lula foi engabelado por Márcio Thomaz de Bastos, então ministro da Justiça, e agora está com um verdadeiro abacaxi nas mãos. Nada justifica a constituição de uma reserva de terras contínuas em uma área de fronteira sensível, onde existem conflitos em países vizinhos. No limite, a criação da reserva põe em risco a própria existência de Roraima como Estado, pois quase 50% de suas terras serão reservas indígenas.
Contra a criação de uma reserva contínua, se levantaram várias vozes, inclusive de membros do governo e de sua base. A própria Casa Militar de Lula na época posicionou-se contrariamente. Não estamos, portanto, entre uma questão entre governo e oposição, mas sim diante de um fato grave que pode comprometer o controle do país sobre o seu próprio território. Isto é tão mais grave quando levamos em consideração que a região amazônica é vulnerável à ação do narcotráfico e outras organizações criminosas.
Este é o motivo da insatisfação militar com a criação da reserva Raposa do Sol. O general Augusto Heleno não é uma voz isolada e suas palavras traduzem o pensamento dos oficiais lotados no Comando Militar da Amazônia. O mesmo pensamento foi expresso também pelo chefe do Estado Maio do Exército Leste e a posição do general foi apoiada membros do Clube Militar. Há, portanto, um contencioso que não será resolvido apenas com o enquadramento do comandante militar da Amazônia.
O quadro é mais grave quando se leva em consideração que a Amazônia é palco de vários conflitos e que há um desaparelhamento das Forças Armadas até para garantir o controle de nossas fronteiras. Basta ler a matéria do Estadão de ontem, segundo a qual apenas 17 soldados tomam conta de uma fronteira de mais de mil quilômetros. Falta tudo, armas modernas e meios de transportes.
Claro que contribui para a insatisfação dos militares a leniência do governo Lula com o desrespeito à lei cometido pelo MST e outros movimentos sociais que atuam na Amazônia. Um prefeito e militantes petistas estimulam e lideram invasões à ferrovia da Vale do Rio Doce e nada acontece com eles. E, pasmem, as ações do MST são respaldadas pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, para quem as ações dos Sem Terra contribuem para a democracia!
A reserva Raposa do Sol é mais gasolina na fogueira. É bom Lula parar de brincar com fogo e encontrar uma solução, antes que novas insatisfações militares venham á luz do dia."
O texto acima é do Pitacos(http://pitacos-politicos.zip.net/), um dos melhores sobre política, em toda blogosfera e, exprime corretamente minha posição.
domingo, 10 de junho de 2007
Invasão USP, visão de um jovem Uspiano

Apoena C. Cosenza, 21 anos, é estudante de História na USP e militante da UJC (União da Juventude Comunista) pelo campo “A Hora é Essa”.
Extremismo x Radicalismo
Quando meu pai me convidou à escrever uma nota para o pitacos sobre a Reitoria Ocupada da USP, só pude pensar que isto incorreria em alguma forma de traição do movimento. Mas em menos de um minuto percebi que colocar minhas observações pessoais em um blog político, democrático e de alta qualidade, não seria traição nenhuma, mas, pelo contrário, uma coerência com minha posição.
Por que coerência? Simples. Sou sim um radical. Sou radical, pois quero atingir a raiz dos problemas, e é isso que é ser radical. Quando entrei na USP me deparei com diversos problemas. Falta de professores, estrutura física dos prédios completamente comprometida, estrutura burocrática anti-democrática e corrompida (ao ponto de professores já terem saído na mão para decidir quem receberia verbas para pesquisa).
Em maio de 2007, dia 03, uma quinta feira, quando fiquei sabendo que se ocupava naquele momento a Reitoria da USP, só pude participar. Como não o fazer? Presenciei dias de chuva que o prédio da História foi alagado, presenciei aulas da Letras que alunos assistiam pela janela. Vi um professor da filosofia falando que não tinha conceito fixo para avaliação e bolsas de pesquisa não serem aceitas por motivos políticos.
A USP estava, e está, com um tumor, que se acentuava com a perda da autonomia: é a centralidade de decisões e a conseqüente falta de democracia. Deixemos claro, não sou contra a transparência, pelo contrário, ela é necessária à democracia. Mas também o é a diminuição de burocracia, o que nunca é colocado em pauta pelos governos, sejam quais forem.
Nesse sentido, sou sim radical, quero ver um país democrático. E ocupar (não invadir, pois invade quem é de fora, e aluno da USP é membro da USP e assim só pode ocupar) é um método. Método com seus defeitos? Com certeza. Mas um direito. Aprendi em propagandas da época eleitoral que democracia é mais do que voto. É participação. E participo do modo que posso.
Em certo ponto, porém, tudo saiu errado. As duas primeiras semanas foram uma batalha. O PSTU e PSOL, como sempre, tentavam nos dirigir. Convencer que deveríamos sair ainda com os decretos em vigor. Que já havia um avanço. Conduziam a assembléia com métodos sujos, mas muito antigos. Tratorando as propostas que chegavam na mesa, ignorando pessoas que pediam para se inscrever. Estendendo as assembléias até ninguém mais aguentar e ir para casa.
Vencemos essa tática. Mas nos aliamos à um demônio até então mal conhecido: LER-QI. A Liga Estratégica Revolucionária da Quarta Internacional, fração trotskista. O Custo foi alto. Essa minoria se mostrou uma especialista em manobras sórdidas. E muito pior. Alinhou-se ao PSTU na terceira semana, com o intuito de fazer a ocupação servir à CONLUTAS (essa sinistra instituição insurrecionista que ignora os interesses de cada sindicato, grupo e movimento, para gerar uma suposta revolução que nunca chega, pretexto para tentar eleger deputados, embora não eleja nenhum).
A tal LER-QI mostrou e mangas ao se revelar um enxame. Táticas antigas, como a de ocupar as duas primeiras fileiras das assembléias para dominar o contato com a mesa, são usadas. Mas há inovações nefastas. Criaram uma “polícia da plenária”, um grupo de seis a dez pessoas que ficam espalhadas pela assembléia, escutando tudo que se diz, vendo tudo que se faz. Ao primeiro sinal de ataque às suas propostas, acionam o restante do grupo e impedem que a pessoa fale. Cercam e, pasmem, até pressionam pessoas.
Saída de um verdadeiro karaoquê dos trotskistas, a LER-QI possui militantes que agem, pensam e se portam de forma quase idêntica. “Centralizados, mesmo que discordantes”, segundo palavras de um próprio militante da Liga. Uma espécie de enxame que, espero, se descobrirmos a rainha, e a derrubarmos, o resto cai junto.
Mas as peripécias não param por aí. Com a aliança do PSTU, a LER-QI domina, em nome da CONLUTAS, a mesa e o plenário. Domina todos os setores da Reitoria Ocupada da USP e torna o fato interno, a luta pela democracia e dignidade, em uma luta mesquinha por poder. Menos em um único local. A Comissão de Comunicação, último refúgio de quem busca a resistência lógica, manteve sua liberdade. Tanto que foi apelidada de PBI, ou Partido Burocrata Independente. Mas o custo aí também foi alto. Aliança com pessoas declaradamente insanas e com anarco-liberais. Os insanos e anarco-iberais ao menos ao menos desejam unicamente espaço para suas liberdades. Eles não possuem um projeto de poder.
Por isso, venho declarar: sou sim membro da Comissão de Comunicação da Reitoria Ocupada. Entretanto, minha opinião pessoal é que já passou da hora de levar uma greve e de abandonar a ocupação, já esgotada e implodida por uma tosca minoria organizada na Liga, e que diz querer uma Greve Geral, a partir da ocupação da reitoria da USP. De tal modo está longe da realidade, que tenta puxar greve nos Correios tendo como ponto de partida a ocupação, o que eles chamam de o “fato político mais relevante do momento”. Sorte que há militantes e sindicalistas que sabem bem que tal feito é impossível no momento, e até tentam, inutilmente, explicar isto para extremistas como os da LER.
A responsabilidade política manda que radicais, como eu (que buscam entender os problemas concretos e estruturais da sociedade), combatam certos extremismos (inteiramente descolados da realidade) que pregam a surreal idéia da “Greve Geral até o fim do Capital”.
Apoena Cocenza
São Paulo, 9/6/2007
